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domingo, 23 de setembro de 2007

O curto prazo como horizonte...

Luís Marques Mendes e o PSD têm vindo a delinear uma estratégia de oposição que assenta, em grande medida, na tentativa de antecipar a possível baixa de impostos que o governo será tentado a fazer em vésperas do compromisso eleitoral de 2009. Perante cada novo número que surge em relação ao crescimento económico português, lá repetem, alguns, a convicção de que os impostos deveriam baixar e de que a despesa pública deveria reduzir-se. Ora todos os governos responsáveis têm, com o panorama mais recente da economia portuguesa, como objectivo reduzir a despesa pública. Não só porque isso contribuiria decisivamente para a redução do défice imposta por Bruxelas, mas também porque uma economia saudável não deve crescer através do Estado, mas sim pela iniciativa privada e pelo investimento das empresas. Um Estado forte terá, então, a missão de regular convenientemente as relações entre os agentes e de garantir a todos um nível de vida mínimo. No entanto, para que se consigam atingir estes objectivos, o Estado não pode ambicionar desenvolver as suas influências para âmbitos que devem pertencer à esfera da iniciativa dos cidadãos e das empresas.

Vem isto a propósito de me parecer que as pessoas do PSD sabem perfeitamente que, neste momento, seria prejudicial para o país e, até, irresponsável, baixar os impostos. O que se esperará desta jogada são, essencialmente, duas coisas. Em primeiro lugar, cativar alguns eleitores, desconhecedores da situação actual, que veriam com bons olhos propostas deste tipo. Penso, ainda assim, não representarem um número relevante neste momento. Por último, pode, se Sócrates decidir baixar os impostos em 2009 sob a justificação de que estamos numa conjuntura mais favorável, apregoar que já há dois anos que exigia essa medida e que o governo apenas lhe está a dar razão. É arriscado politicamente, mas tem hipóteses de ser bem sucedido.

Em relação à redução da despesa pública a análise não é fácil de fazer, a não ser que se considere uma proposta puramente demagógica. Como já referi isso seria o ideal e nenhum governante desta área dirá o contrário. A questão não está em reduzir a despesa mas na forma como isso se consegue. E este governo tem dado passos concretos nessa direcção. E, sobretudo, tem tomado medidas corajosas e que nenhum anterior tinha tido coragem de realizar. Mas o que importa dizer é que a redução da despesa, ainda que fortemente desejável, não é algo que se consiga atingir por um certo número de decisões, nem que seja imposta por decreto. É algo que demora muito tempo, e as medidas que estão a ser tomadas agora e que serão tomadas até às eleições serão, muito provavelmente, alvo de reconhecimento quando o PSD estiver no governo.

É precisamente esta questão que inviabiliza, por vezes, a adequada governação. Os incentivos a governar tendo como horizonte o curto-prazo são, muitas vezes, a diferença entre vencer umas eleições ou perdê-las. Ou vencer com maioria absoluta ou não.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Israel e Palestina: o "lopping" dos dois Estados

Quando, depois da Segunda Guerra Mundial, se criou o estado de Israel, talvez poucos vaticinassem que, passados sessenta anos, uma das questões mais fundamentais para a estabilidade geopolítica a nível mundial passasse, não só por essa região, mas pela própria definição do estado então criado. George W. Bush anunciou que, neste momento, o seu plano passa pela realização, no Outono, de um conferência internacional que promova a intenção de reavivar a solução de dois estados, Israel e Palestina, que se respeitem e coexistam em paz. Parece-me que esta solução, que vem sendo defendida há já alguns anos, é relativamente consensual para quem olha para esta questão de uma forma desapaixonada e distante (e, por essa razão, potencialmente geradora de erros). Apesar disso, esta “nova” atitude de Washington difere em quase nada daquela que foi defendida, em 2002, pela mesma administração. O que só pode ser visto como um fracasso das iniciativas desde então. Não devemos, no entanto, desprezar esta nova vontade americana de colocar esta questão no topo das suas prioridades. Em primeiro lugar porque os EUA são, em larga medida, os únicos agentes capazes de liderar a definição de uma nova realidade na região, fruto das relações privilegiadas com Israel, que lhes conferem uma autoridade para colocar pressão de uma forma que nenhum outro país conseguirá fazer. E Israel, como “força maior” deste conflito, precisa de ter uma pressão forte, sob pena de uma das partes do conflito não ter incentivos a ceder em questões importantes das negociações. O que implicaria um fracasso certo. Em segundo lugar devido à vontade da actual administração, à semelhança do que já acontecera com Clinton, de, com a aproximação do final do segundo mandato, mostrar determinação em resolver esta delicada questão. Poucas coisas dão mais agrado a um governante do que ficar ligado à resolução de um problema que se arrasta há demasiado tempo.

A União Europeia, por seu lado, pretende desempenhar neste processo um papel importante, que a coloque num patamar da diplomacia mundial que ainda não foi capaz de desempenhar. Neste processo, a liderança natural dos EUA enviesa a análise do papel que a Europa pode desempenhar. A força de União Europeia residirá, não só na forma como conseguir agir a uma só voz, mas também na capacidade que terá de proporcionar a Tony Blair a hipótese de fazer a diferença onde outros anteriormente falharam. Era isto que defendia Teresa de Sousa no Público, na semana passada.

A última questão que me parece fulcral é a forma como se conseguirá, ou não, na tentativa de reforçar Abbas (líder da Autoridade Palestiniana) e marginalizar o Hamas (já em parte conseguida), convergir para uma solução em que o novo estado palestiniano agregue todas as tendências. O perigo é, logicamente, enorme e reside no facto da possibilidade desta questão se tornar num impedimento ao sucesso das negociações, se existir vontade de alguns sectores do povo palestiniano em boicotar a solução. Será difícil entender os verdadeiros motivos que levam os mártires muçulmanos a julgar o conflito com as próprias vidas. Mas não deve ignorar-se o sentido dessa luta. Porque ela pode representar um importante veio de comunicação com o Ocidente e abrir caminho a uma resolução mais estável. No filme “Paradise now”, que retrata esta questão, o realizador Hany Abu-Assad, tenta mostrar-nos a insuportável pressão a que se encontram sujeitas estas pessoas e o terrível mundo subterrâneo dos que os treinam e incentivam. E demonstra que o povo não pode ser confundido com pessoas para as quais o único objectivo é criar instabilidade, que conduza a resolução nenhuma. E que no íntimo das dúvidas que estas acções suscitam está a força que dão a posições radicais do lado israelita.

Provavelmente, estas iniciativas recentes não conduzirão a nada mais que as últimas. Mas há espaço para que seja diferente. E perigos a considerar.

domingo, 22 de julho de 2007

Rescaldo

No passado fim de semana realizaram-se as eleições para a Câmara de Lisboa, que já se discutiu aqui neste blog. E o que se previa? Uma vitória folgada de António Costa com a principal incógnita a ser a distribuição dos vereadores. Uma maioria era muito improvável uma vez que o número 2 do PS sem coligação, o que já não acontecia à várias eleições municipais. Mas o grande vencedor não deixa de ser a abstenção. 62,61% dos eleitores teriam chegado para ganhar com maioria absoluta o candidato que apelasse a esta população que já não se identifica com esta classe política. Fernando Madrinha tinha já avisado antes da consulta popular que não seria o Verão e o sol a impedir as pessoas de votar. Nem de propósito o tempo realmente não puxou para a praia mas mesmo assim os lisboetas não foram às urnas. E porquê? As razões foram adiantadas por diversos comentadores. Fernando Madrinha afirma que é o cansaço em relações aos políticos actuais, defendido e protagonizado por Manuel Monteiro que não consegui levar a sua Nova Democracia para a frente do PNR, de extrema-direita. José António Saraiva afirma que o grande vencedor foi Carmona, que provou que não precisava do PSD e que Lisboa não precisava de eleições. E defendendo o resultado do PSD como a divisão entre dois candidatos. Mas o PS também teve os seus votos divididos e sem Helena Roseta na corrida seria difícil aos restantes candidatos retirar a maioria história ao PS na Câmara de Lisboa. Por tanto podemos ver que existem vários factores em jogo. Os independentes a retirarem votos aos principais partidos e a baralharem as suas contas, e a elevada abstenção, mesmo com 12 candidatos.
E como é que os resultados afectaram o quadro político nacional? As mais pesadas derrotas, do PSD e do CDS, foram as que causaram mais danos. O PSD entrou esta semana numa luta de liderança que poderá apenas servir para desgastar mais o actual líder, como é hábito no PSD quando não está no governo. É o que afirma Henrique Monteiro no Expresso desta semana. É o que já se previa. Marques Mendes era um líder para levar o partido durante a travessia do deserto dos primeiros anos do Governo de Sócrates. Apenas se pondera agora quando a melhor altura para colocar outro líder para disputar em 2009 as legislativas já por si complicados. No CDS o recém eleito Paulo Portas a pagar pela forma como foi eleito, o que afastou a melhor candidata do partido Nogueira Pinto, e num golpe desesperado sacrifica um dos seus mais fies seguidores, Telmo Correia. Muitos dentro do partido defendem a sua manutenção para que afunde o partido e que saia de vez da cena política. Outros pedem já a sua cabeça. Não foi um regresso sebastiânico como se esperava.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Por que vai Costa ganhar Lisboa

As eleições intercalares para a Câmara de Lisboa estão, desde a sua antecipação e da apresentação de António Costa como candidato pelo PS, condenadas à vitória da alternância e a serem quase relegadas para segundo plano, tanto no noticiário nacional como na consciência colectiva da importância deste escrutínio. Isto apesar da sensibilidade política motivar a possibilidade de uma forte penalização do governo, em queda nas sondagens. Existem, no entanto, algumas explicações para que isso não suceda.

A primeira razão prende-se com a anterior governação. Tenho por Carmona Rodrigues uma impressão de seriedade. No entanto, a sua actuação no campo político, já que tempo não houve para uma análise mais profunda, foi pouco mais que aceitável. Durante o tempo em que governou a Câmara nunca deu a ideia de controlar verdadeiramente a situação e deixou que o partido pelo qual tinha sido eleito lhe tirasse o tapete quando mais precisava de apoio. E isso aconteceu porque a sua dinâmica de actuação foi sempre reactiva e nunca pró-activa. Tentou reagir à situação cada vez mais constrangedora da Câmara, reagiu sempre às declarações de Marques Mendes, reagiu à sua tomada de decisão de provocar eleições… sem nunca mostrar estar ao leme da autarquia, com a situação controlada. Mas antes passando para a opinião pública a ideia de que não conseguia vencer as sempre numerosas influências partidárias. Em política, tão importante como fazer, é demonstrar que se sabe o que se está a fazer e que se tem um caminho definido, sendo convicto e convincente. Foi precisamente o que Carmona Rodrigues nunca demonstrou ser.

O segundo aspecto importante que determinará a vitória de António Costa tem a ver com a situação financeira da câmara. De tão aflitiva que é (embora sem responsabilidade directa aparente do presidente cessante), não deixa margem de manobra ao eleitorado para decidir por uma personalidade de risco (como seria Helena Roseta) e beneficia a maior previsibilidade da alternância entre os dois grandes partidos (ao contrário do que se poderia pensar numa primeira análise). Por outro lado, os lisboetas, neste momento, recebem com agrado as constantes palavras que o candidato tem dedicado a este tema, considerando-o o mais importante na governação de curto prazo. E é, sem dúvida. Não é tão claro, ainda assim, que a aposta na repetição deste argumento em campanha seja produtiva para quem a faz. No entanto, parece-me claro que, neste momento, o é. O país e Lisboa estão numa situação de crise mental, o que beneficia a frontalidade das propostas mais realistas.

Por último, mas não menos importante, é a forma como, nos últimos anos, se assiste às eleições em Portugal, Os cidadão estão cada vez mais longe da actividade política e alheados das verdadeiras propostas de cada candidato. Isto implica, necessariamente, uma maior previsibilidade nos resultados, que não serão muito diferentes das sondagens do dia a seguir ao anúncio da realização de eleições. O que só demonstra a quase inutilidade da campanha para os resultados finais. Os candidatos são previsíveis, não deixam escapar um pormenor do enfeite mediático e pouco se diferenciam. É, assim, hoje improvável observar uma recuperação, como aconteceu, por exemplo, com Mário Soares nas presidenciais de 86.

António Costa vai, portanto, vencer as eleições sem que para isso tivesse de realizar uma grande campanha ou esboçar um grande plano para a cidade. Oxalá o tenha…

segunda-feira, 9 de julho de 2007

FMI e Flexisegurança, BCP e Benfica

Nas duas semanas que passaram muitos dos assuntos da actualidade tiveram desenvolvimentos, alguns estranhos, outros previsíveis

No final do mês passado o FMI divulgou um relatório sobre Portugal onde defendia as reformas que se têm vindo a verificar mas que estas teriam de continuar e ser mais profundas uma vez que, apesar de apresentar significativas melhorias, Portugal ainda enfrenta grandes dificuldades. Uma das áreas em foco neste relatório é o mercado laboral, que se encontra muito rígido, não permitindo ao país acompanhar o desenvolvimento europeu. É que em alturas de expansão económica é fácil crescer-se a ritmos superiores aos da média europeia pelo efeito catching-up (os países mais pequenos crescem em média mais que os maiores). Só que durante recessões isso já não acontece se estivermos a competir com economias mais dinâmicas e flexíveis. Tal como referi num post anterior, “A manutenção do “status quo” dos direitos adquiridos, (…), está a levar a que o nosso país seja apontado como um dos piores a nível da rigidez do mercado de trabalho e as consequências directas desta classificação é a perda de competitividade e o desemprego”. Não se trata de avançar para as leis laborais chinesas, como ironicamente refere Nicolau Santos, no seu artigo do Expresso mas de permitir a Portugal acompanhar os restantes países europeus. Concordo no entanto que apenas isso não basta e toda uma politica económica tem de continuar a ser seguida pelos próximos governos. Mas esta legislação laboral está a ser um factor essencial para a nossa falta de competitividade. É o que defende Manuela Ferreira Leite na mesma página. Apesar das leis laborais terem uma razão histórica, não se adequam à economia global que vivemos actualmente.

No BCP a guerra pela liderança do banco escalou, com ambos os lados a assumirem as divergências que já eram evidentes. Jardim Gonçalves escreveu esta semana uma carta aos accionistas, acusando Paulo Teixeira Pinto de falta de lealdade. Com a AG marcada para dia 6 de Agosto, vai saber-se nos próximos dias as moções que irão ser apresentadas. E ai saberemos com que podemos contar, numa AG que irá ser seguida por toda a gente interessada no futuro do maior banco privado português. Este sábado, .também no Expresso, Henrique Monteiro fala da guerra aberta no banco e de como poderá não haver vencedores, se apesar de derrotar Jardim Gonçalves, Paulo Teixeira Pinto não conseguir defender o banco de uma OPA estrangeira. É que o processo de integração do sector bancário europeu não pára e a dimensão do BCP torna-o num alvo bastante apetecível.

Na SAD do Benfica, a OPA de Berardo foi registada sem alterações, para no dia seguinte surgir o rumor de que existe um grupo chinês interessado na sua compra e que poderá oferecer o dobro da contrapartida de Berardo. A compra de clubes de futebol por empresas não é novidade e nos Estados Unidos, equipas de basebol e de basket trocam frequentemente de dono. Na Europa esse movimento é mais comum na Inglaterra. Em Portugal, com a entrada do Benfica em bolsa, tudo esse processo chegou cedo e depressa demais, sem que nos pudéssemos preparar para ele. No editorial de sexta do Jornal de Negócios, Pedro Guerreiro defende que estão a brincar com as acções do Benfica. É possível que sim, uma vez que mais do que uma empresa, a SAD que é controlada pelo clube representa muitos sócios e simpatizantes que mais do que racionalmente, vivem o clube com muita emoção.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Flexisegurança ou o fim da competitividade Nacional

Muito se tem falado nos últimos tempos sobre flexisegurança. Para os sindicatos não passa de um demónio que permitirá aos patrões despedir indiscriminadamente os seus trabalhadores, a troco de mais uns tostões no subsídio de desemprego.
Mas a flexisegurança é mais que isso. Baseia-se na flexibilidade a contratar, despedir e ajustar e segurança durante o desemprego. Aqui não se baseia apenas no aumento do subsídio mas principalmente na qualificação e na rapidez com que se encontra o novo emprego.
A manutenção do “status quo” dos direitos adquiridos, que é a principal bandeira dos sindicatos, está a levar a que o nosso país seja apontado como um dos piores a nível da rigidez do mercado de trabalho e as consequências directas desta classificação é a perda de competitividade e o desemprego, motivado pelo desinvestimento estrangeiro. Não podemos chorar sempre que uma determinada fábrica decide fechar as portas, levando ao desemprego de centenas de trabalhadores. Se pensarmos que um mercado de trabalho mais flexível poderia ter levado a que, apenas despedindo poucas dezenas de trabalhadores, se tivessem salvo os restantes postos de trabalho, a flexibilidade surgiria como um factor empregador e não causa de desemprego. Outro aspecto a favor da flexisegurança é a aposta na formação, uma vez que já não existem empregos para a vida e só um desempregado formado poderá mudar de emprego facilmente.
O subsídio de desemprego atribuído de forma indiscriminada só faz com que a procura activa de emprego baixe, existindo toda uma economia paralela que trabalha de forma clandestina, recebendo ainda o subsídio. Este tem de ser fiscalizado e ser atribuído apenas numa fase transitória que não deverá se prolongar como acontece actualmente.
O que está em causa não é a perda de direitos dos trabalhadores. É a evolução para um mercado de trabalho mais eficiente e adaptado à realidade dos nossos dias.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Manual de como fazer política e lavar dai as mãos

Esta semana conheceu a sua sentença Lewis “Scooter” Libby, ex-conselheiro de George W. Bush e antigo chefe de gabinete do seu vice-presidente Dick Cheney. E porque foi condenado este alto funcionário da administração americana? Por ter divulgado a um jornalista a identidade de uma agente da CIA. O artigo resultante apareceu no Washington Post a 14 de Julho de 2003 e desencadeou um grande alvoroço na imprensa norte americana, pois a revelação do nome de uma agente secreta é crime. Após se ter seguido o rasto da fonte chegou-se à conclusão que tinha sido directamente do gabinete do vice-presidente Dick Cheney e confirmada depois por Karl Rove, chefe do gabinete do próprio George W. Bush. Uma pergunta pertinente seria a razão desta fuga de informação que para alem de constituir crime, compromete todas as operações em que a dita agente estava envolvida. E a resposta também não é difícil de encontrar pois esta agente é casada com o antigo diplomata Joseph Wilson, que defendeu num artigo no New York Times que o Iraque não estava a comprar urânio em Africa, um dos argumentos usados pela administração Bush para invadir aquele país.

Alguma cabeça tinha de rolar e o escolhido foi e chefe de gabinete do Vice-presidente Dick Cheney, que se mostrou desapontado com a sentença, pelo trabalho prestado por Libby ao país. A questão parecia resolvida não fosse o recurso de Libby de forma a adiar o cumprimento da pena, que poderia levar a que Bush, no fim do seu mandato, lhe desse um perdão presidencial. É incrível como a estratégia parece estar definida desde o início e já lá vão quatro anos desde que toda esta história começou.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

O problema da Democracia

A democracia é o melhor sistema político que temos, mas existem alturas em que se revela claramente insuficiente. Na Venezuela, o presidente Hugo Chavez é rei e senhor e, por mais vezes que os seus opositores o sujeitem a eleições, com maior margem ganha. Pode-se pensar em fraude mas a fiscalização internacional é unânime na legalização destas consultas populares.

Neste momento está a limitar cada vez mais essa democracia com o encerramento forçado de uma televisão privada e a ameaça de mais se seguirem. Mas a verdade é que a cada manifestação contra o regime vigente aparece sempre outra tão ou mais numerosa a favor da continuação de Chavez no governo. O fenómeno não é novo e é um resultado directo da democracia. Já na Alemanha do início dos anos 30s, Hitler ascendeu ao poder num clima de depressão económica através de propostas concretas para resolução da crise e apontando os culpados, sendo desta forma aclamado pela maioria dos eleitores. No início do século XXI os culpados eleitos por Chavez são os Estados Unidos da América, liderados por George W. Bush.

Os Estados Unidos, o “maior” bastião democrático do mundo, já o tentaram retirar à força, existindo imediatamente um contra golpe repondo Chavez de novo no poder. Aliás se verificarmos todas as vezes que os Estados Unidos patrocinaram directa ou indirectamente golpes de estado em países sobre regimes ditatoriais as soluções encontradas não foram de todo “democráticas”. Nos exemplos mais recentes do Afeganistão e do Iraque as situações em que se encontram estes dois países podem ser apelidadas de tudo menos de democracias. Mais uma vez podemos verificar que o facto de a Venezuela ser um dos maiores exportadores de petróleo do mundo também não é indiferente aos Estados Unidos, sendo preferível existir nesse país um regime mais pró-americano. Mas Chavez é um dos maiores adversários de Bush e o facto de ser legitimamente eleito é o elemento mais problemático para a actuação americana nesse país. A última coisa que Bush precisa é de mais um regime comunista na América do Sul, principalmente um que os Estados Unidos não podem boicotar à imagem de Cuba pois necessitam do seu petróleo. Os Estados Unidos têm 5% da população mundial e consomem 25% da energia mundial e é esse o grande poder de Chavez que o torna incómodo. Tem uma forte notoriedade na América Latina e alarga-a através da dependência que criou do seu petróleo.

Com Bush a terminar o mandato em breve este será um problema a ser lidado pela nova administração americana. Mas enquanto for legitimamente eleito pela maioria da população, Chavez deverá ter o seu lugar seguro.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Desgoverno de Lisboa

Muitos são os candidatos para a Câmara de Lisboa numa altura em que esta só não abre falência por ter o apoio do Estado. Como se chegou a esta situação? As explicações são várias e vêm muito de trás o que mostra que apesar de muita coisa ter sido feita por Lisboa, nunca um Presidente da Câmara se preocupou com o futuro e o que vinha a seguir. O mandato era de quatro anos e nunca havia forma de garantir que se ficaria por mais quatro ano pois a maior câmara do país é também um palco político onde os eleitores se preocupam mais a castigar os governos do que a eleger a melhor solução para a cidade. Já para não falar da visibilidade que dá ao presidente que tenta almejar voos mais altos após quatro anos na câmara. E assim se foi gerindo a câmara com uma visão de curto prazo até chegarmos ao ponto de não haver dinheiro para o papel higiénico.

E que soluções se apresentam a votos? Em primeiro lugar e o mais provável próximo Presidente da Câmara é António Costa, uma aposta muito forte por parte do PS. Na minha opinião fazia mais falta ao governo e a nível pessoal penso que é uma forte despromoção, não pelo cargo em si mas pela situação que vai encontrar. Não irá ter visibilidade quase nenhuma porque não há dinheiro para grandes obras. No governo estava a promover reformas que faziam falta ao País. Na câmara vai ter de dar a volta a uma situação financeira muito complicada. Não irá ter maioria absoluta pelo grande número de candidatos e precisará de um grande jogo de cintura. Motivado pelas sondagens aparece o primeiro candidato independente, Carmona Rodrigues. Não saiu em tempo útil, parecendo estar agarrado ao poder mesmo quando já não tinha condições para governar. O PSD tirou-lhe o tapete debaixo dos pés e agora parece que esta candidatura é mais uma vingança do que uma solução. Talvez Carmona queira estar presente quando forem discutidos assuntos sensíveis que estiveram na base dos consecutivos escândalos que abalaram recentemente a Câmara de Lisboa. Quem fica a perder com esta candidatura é Fernando Negrão, candidato do PSD que aparece depois das primeiras escolhas terem recusado. Vai relegar o PSD para uma posição marginal na Câmara, estando a discutir o terceiro lugar com Helena Roseta. No espírito rebelde que baseou a candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República, aparece a Presidente da Ordem dos Arquitectos sai do PS para se poder candidatar como independente e torna-se numa das razões da falta de maioria do PS. Vai ter um papel importante embora não possa aspirar ao resultado de Manuel Alegre nas presidenciais. De seguida aparece Ruben de Carvalho, que ainda não começou a espalhar cartazes, talvez por estar confiante que terá um resultado que lhe garanta ser a solução para a coligação com o PS para poder governar a câmara. Teve um papel importante no último mandato e esta situação é lhe favorável pois poderá integrar o executivo. Do lado Do BE volta a aparecer Sá Fernandes, com o slogan “o Zé faz falta”. De facto Sá Fernandes fez falta na câmara de Lisboa para apontar muitas das trapalhadas que por lá se iam passando. Contudo neste momento a Câmara precisa de estabilidade e não de agitação pelo que não deverá ter problemas para ser eleito mas não será solução para a coligação com o PS. No outro extremo encontramos Telmo Correia, a lutar pela eleição e que poderá também ele ser solução de coligação, apesar das diferenças em relação ao PS. Foi um candidato de recurso e penso que isso lhe poderá valer a não eleição, o que poria o CDS e o recém-eleito líder Paulo Portas em muitos maus lençóis. Sem hipóteses de serem eleitos aparecem todos os restantes candidatos: Manuel Monteiro, motivado pelo sucesso na Madeira mas que não deverá conseguir extrapolar para a maior câmara do país, Pinto Coelho, que tenta capitalizar a recente exposição mediática a que o seu partido esteve sujeito, Gonçalo da Câmara Pereira, que fruto da coligação com o PSD está no Parlamento mas que também não irá conseguir um resultado sozinho, Garcia Pereira e Pedro Quartin Graça, pelo PCTP-MRPP e pelo MPT respectivamente.